Patologias do Ombro

Lesão HAGL: o que é, por que acontece e como tratar

Entenda a lesão HAGL do ombro, sintomas, diagnóstico por imagem e opções de tratamento com reabilitação.

A lesão HAGL é uma causa menos lembrada de instabilidade no ombro, mas pode explicar episódios repetidos de “sair do lugar”, dor ao levantar o braço e perda de confiança em movimentos acima da cabeça.

A sigla vem do inglês Humeral Avulsion of the Glenohumeral Ligament, que descreve um descolamento do ligamento glenoumeral (geralmente o inferior) na sua inserção no úmero.

Em termos práticos: uma estrutura que ajuda a “segurar” a articulação perde sua fixação, e o ombro fica mais vulnerável.

Esse tipo de lesão costuma aparecer depois de um trauma com o braço em abdução e rotação externa (o braço aberto e girado), cenário comum em quedas, lutas, esportes de contato, arremessos e luxações anteriores do ombro.

Em alguns pacientes, ela pode coexistir com outras alterações, como lesões do labrum (Bankart) ou danos capsulares, o que muda o plano de tratamento.

O que caracteriza a Lesão HAGL

O ombro é a articulação mais móvel do corpo, com grande liberdade de movimento e, por isso, depende de estabilizadores dinâmicos (músculos) e estáticos (ligamentos, cápsula e labrum).

Na lesão HAGL, ocorre um “arrancamento” da cápsula/ligamento na parte umeral.

Esse detalhe anatômico é relevante porque a instabilidade pode persistir mesmo quando exames e testes parecem sugerir apenas uma lesão labral.

A consequência mais típica é a instabilidade anterior, com sensação de falseio, medo de determinados gestos (principalmente com o braço aberto) e dor profunda, que pode piorar em esportes, treino de força e atividades acima do nível do ombro.

Causas e situações mais comuns

A lesão HAGL aparece, com frequência, em três contextos:

  • Luxação do ombro após trauma de alta energia ou queda.
  • Esportes de contato (futebol, handebol, artes marciais, rugby) com impacto e torção do membro superior.
  • Atividades com rotação externa forçada, como arremessos, movimentos explosivos ou acidentes.

Nem sempre o paciente relata uma luxação “clássica” com redução no pronto atendimento. Em alguns casos, o ombro subluxou (desviou e voltou) e o quadro evoluiu com instabilidade recorrente e dor.

Sintomas: quando suspeitar

Os sinais variam, mas alguns pontos chamam atenção:

  • Sensação de ombro instável, principalmente em movimentos com o braço aberto.
  • Dor ao arremessar, treinar acima da cabeça ou apoiar o corpo com o braço.
  • Perda de desempenho e insegurança para atividades esportivas.
  • Episódios repetidos de subluxação ou luxação.
  • Limitação funcional por dor e apreensão.

Quando o ombro “parece não confiar”, mesmo após fisioterapia inicial ou quando há recidiva, vale investigar mais a fundo.

Diagnóstico: por que pode passar despercebida

O diagnóstico combina história clínica, exame físico e imagem.

O exame avalia instabilidade, apreensão e padrão de dor, mas a confirmação costuma depender de ressonância magnética, muitas vezes com artrografia (contraste intra-articular), que melhora a visualização capsuloligamentar.

A lesão HAGL pode ser confundida com outras causas de instabilidade. Um ponto importante é que o tratamento muda bastante quando a instabilidade tem componente capsular relevante.

Por isso, um acompanhamento com ortopedista de ombro referência costuma fazer toda diferença para interpretar os achados, correlacionar com sintomas e evitar condutas incompletas.

Tratamento: quando é conservador e quando é cirúrgico

O plano depende de intensidade da instabilidade, demanda esportiva, achados associados e risco de recorrência.

Tratamento conservador

Em casos selecionados, pode ser indicado quando:

  • Não há episódios frequentes de instabilidade.
  • A dor é controlável e a função está preservada.
  • O paciente não pratica esporte de alto risco para o ombro.

A reabilitação foca em controle escapular, fortalecimento do manguito rotador, propriocepção e retorno progressivo ao gesto esportivo.

Mesmo com boa fisioterapia, recidivas podem ocorrer se a lesão capsular for significativa.

Tratamento cirúrgico

É considerado com mais frequência quando:

  • Há instabilidade recorrente ou incapacitante.
  • Existe associação com outras lesões estruturais.
  • O paciente é atleta ou tem alta demanda funcional.
  • Falha do tratamento conservador bem conduzido.

A correção pode ser feita por artroscopia ou via aberta, com reparo da cápsula/ligamento na sua inserção.

O objetivo é restaurar a estabilidade e permitir o retorno seguro às atividades, com menor risco de novas luxações.

Reabilitação e retorno ao esporte

A reabilitação pós-operatória segue fases:

  1. Proteção inicial.
  2. Ganho gradual de mobilidade.
  3. Fortalecimento.
  4. Treino específico de esporte/trabalho.

O retorno não depende só do tempo, e sim de critérios funcionais: força, controle, ausência de apreensão e tolerância ao gesto esportivo.

Forçar o retorno precoce aumenta o risco de dor persistente e instabilidade. Por outro lado, reabilitação bem conduzida entrega evolução consistente.

O que piora o prognóstico

Alguns fatores podem dificultar o resultado se não forem tratados adequadamente:

  • Repetição de episódios de instabilidade antes do tratamento definitivo.
  • Retorno precoce a esporte de contato ou arremesso.
  • Associação com outras lesões não reconhecidas.
  • Reabilitação incompleta, com déficit de força e controle escapular.

FAQs — Lesão HAGL

Lesão HAGL é a mesma coisa que Bankart?

Não. Bankart envolve o labrum na glenoide; a lesão HAGL envolve a avulsão capsuloligamentar na inserção do úmero. Podem coexistir no mesmo ombro.

Quais sintomas são mais comuns?

Instabilidade, apreensão com o braço aberto, dor profunda no ombro e recidivas de subluxação ou luxação, principalmente em esporte ou esforço acima da cabeça.

Ressonância sempre detecta a lesão HAGL?

Nem sempre. Em alguns casos, a artro-ressonância melhora a visualização da cápsula e do ligamento. A correlação com exame físico e história é decisiva.

Dá para tratar sem cirurgia?

Em casos bem selecionados, sim, com reabilitação estruturada e controle de demanda. Quando há instabilidade recorrente, a chance de indicação cirúrgica aumenta.

Quanto tempo leva para voltar ao esporte?

Varia conforme a gravidade, técnica e reabilitação. O retorno é guiado por critérios funcionais, como força, controle e ausência de apreensão, e não apenas por tempo.

Dr. Thiago Caixeta

Especialista em cirurgia minimamente invasiva de ombro e cotovelo em Goiânia, CRM/GO 1329, RQE 8070. Membro da SBOT, SBCOC, SBRATE e SLARD.

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